Tanque de Betesda Israel Silva

O Paralítico de Betesda no Tanque | Estudo Bíblico

O Paralítico de Betesda no Tanque | Estudo Bíblico

Quando falamos sobre a cura milagrosa, ocorrida com o paralítico de Betesda, geralmente damos um foco maior em alguns aspectos mais cativantes, porém mais superficiais dessa linda passagem.

Somos impelidos a falar sobre perseverança, insistência em contar com a misericórdia de Deus, afinal, tanque de Betesda em Hebraico, significa “casa de misericórdia”.

Entretanto, olhando mais profundamente para essa passagem, vemos que há níveis mais alegóricos envolvidos com o paralítico de Betesda.

Aparentemente, o Apóstolo João escolheu registrar esse milagre de Jesus (o mesmo João relata que Jesus operou diversos outros milagres que não foram registrados), por causa das inúmeras simbologias que se encaixam nesse texto do Novo Testamento.

O Paralítico de Betesda

Nós não sabemos o que causou a paralisia do homem inválido, que buscava entrar no tanque, quando as águas fossem agitadas pelo anjo. O texto também não informa o tempo que ele estava naquele lugar.

Sabemos o tempo que ele sofria da enfermidade de paralisia, trinta e oito anos:

E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo.
João 5:5

Jesus foi encontrar o paralítico de Betesda, justamente por saber que aquele homem estava nessa situação por todo esse tempo.

E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são?
João 5:6

E conforme procurei mostrar no início deste estudo bíblico, se por um nível mais superficial, esta passagem trata da cura de um inválido, desprezado pela sociedade; por outro nível fala alegoricamente do povo de Israel.

Isso porque o paralítico de Betesda, teologicamente, representa o povo Judeu, que estava em uma verdadeira “paralisia espiritual” na época de Jesus.

João usa o tempo em que aquele homem estava enfermo, 38 anos, pois foi esse o tempo a mais que os Israelitas receberam como castigo, para ficar no deserto, após os pecados de murmuração contra Moisés e contra o Eterno, quando saíram do Egito.

Segundo o número dos dias em que espiastes esta terra, quarenta dias, cada dia representando um ano, levareis sobre vós as vossas iniqüidades quarenta anos, e conhecereis o meu afastamento.
Números 14:34

O povo de Israel já estava há dois anos no deserto quando se aproximaram de Canaã, a terra prometida, quando após os espias terem passado 40 dias espiando a terra, voltaram com um relato que fez o povo querer voltar para o Egito.

O povo não acreditou nas palavras de Josué e Calebe, nem em Moisés, muito menos em Deus. Eles não creram, desprezaram as obras que o Eterno tinha feito por eles.

E como consequência dos seus pecados, ficaram “paralisados” no deserto. Ao invés de entrarem para possuir a terra que Deus havia prometido aos seus pais, eles foram punidos com mais 38 anos no deserto.

Por isso, os 38 anos em que o paralítico do tanque de Betesda esteve enfermo, representam a paralisia espiritual de um povo que também não acreditou nas palavras do Messias prometido, Jesus Cristo.

Mas, se as faço, e não credes em mim, crede nas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele.
João 10:38

O Anjo Que Descia ao Tanque de Betesda

Quando ouvimos falar de anjo, logo vem a nossa mente uma figura caricaturizada, de um homem de cabelos loiros, olhos claros, roupa branca reluzente e uma auréola sobre a cabeça.

Mas essa caricatura é proveniente da idade média, e se tornou amplamente conhecida no mundo ocidental.

Mas no original em Hebraico, a palavra “anjo” é o termo מַלְאָךְmalach” (lê-se malar), que significa “mensageiro”. O texto de João 5:4, no original Hebraico, afirma então que um “mensageirodescia ao tanque de Betesda.

Então, João está simbolizando o “anjo”/”mensageiro” com Jesus Cristo, pois Jesus é o Mensageiro do Eterno. Foi Ele quem desceu do céu, para nos trazer a mensagem de salvação, isto é, o Evangelho.

Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu.
João 3:13

Neste verso nós vemos a simbologia do Mensageiro que desceu do céu para curar a “paralisia” espiritual do povo Judeu, para que eles dessem crédito a mensagem do Evangelho.

Por isso Jesus pergunta ao paralítico do tanque de Betesda:

…disse-lhe: Queres ficar são?
João 5:6

O paralítico de Betesda ao invés de responder “SIM”, vai procurar justificativas na sua NÃO condição de atender aos requisitos da Alegoria, pois ele não era capaz de entrar nas águas após serem agitadas pelo “anjo”.

O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.
João 5:7

E isso era endêmico entre os Judeus daquela época (e ainda o é atualmente), que não tiveram a capacidade de enxergar além das alegorias e simbologias da Lei. Não conseguiram (digo, como nação), entender que todas as alegorias da Lei apontavam para o Messias Jesus.

Porque, se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim escreveu ele.
Mas, se não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?
João 5:46,47

As Águas Agitadas Pelo Anjo

Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.
João 5:4

De forma semelhante, as águas agitadas pelo “mensageiro” de Deus, também se constituem em uma alegoria.

As águas postas em movimento simbolizam o Espírito Santo, pois como está escrito no Gênesis, no princípio, usando destas palavras chave, podemos chegar a este entendimento:

…e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
Gênesis 1:2

Ocorre que a palavra “espírito”, em Hebraico, é o termo רוחruach“, que significa “sopro“, “vento“. E como vemos no mar, quando o vento sopra forte, as águas também ficam fortemente agitadas.

E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo.
João 20:22

As águas do tanque de Betesda eram colocadas em movimento, isto é, o Espírito do Eterno se movimentando para trazer vida, cura e perdão.

Isso porque as águas do tanque também simbolizam o arrependimento e o perdão, um mergulho semelhante ao feito por Naamã, que foi curado por meio das águas do rio Jordão.

Isto é um lindo simbolismo do batismo nas águas.

O Tanque de Betesda

o tanque de betesda em jerusalém

O Tanque onde estava o paralítico de Betesda.

Enquanto estava em Jerusalém, Jesus visitou o tanque de Betesda, que João descreveu como possuindo cinco alpendres. O tanque de Betesda estava localizado bem próximo ao lado nordeste do monte do Templo.

Ora, em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres.
João 5:2

O tanque foi construído perto da porta das ovelhas, uma porta que na reconstrução de Jerusalém, durante o período do segundo Templo, estava na parte norte do muro que circundava a cidade.

Os reis de Judá originalmente criaram o tanque de Betesda para servir de reservatório de água, construindo um tipo de represamento, no oitavo século AC (oitocentos anos antes de Cristo).

O Profeta Isaías provavelmente se refere ao mesmo reservatório, chamando-o de tanque superior:

…Agora, tu e teu filho Sear-Jasube, saí ao encontro de Acaz, ao fim do canal do tanque superior
Isaías 7:3

Um segundo reservatório foi criado nos dias de Simão, o justo (duzentos anos antes de Cristo).

Até que Herodes construísse o reservatório chamado de tanque de Israel, durante as reformas da região do monte do Templo (já na época de Jesus), os dois reservatórios, o superior e o inferior é que forneciam a água para o uso do Templo e de Jerusalém superior.

O nome Betesda é uma transliteração do Hebraico ou do Aramaico. A maioria dos teólogos interpretam Betesda como proveniente do Hebraico beit בֵּית, “casa de” e  חִסְדָּא Chisdah (lê-se rísda), “misericórdia”.

Nos manuscritos do Mar Morto, há referências a um tanque em Jerusalém, chamado de בית אשדתין Beit Eshdatayin, “casa das duas fontes”.

Pra Que Servia o Tanque de Betesda?

Como vimos acima, inicialmente o tanque de Betesda era composto por dois reservatórios, que serviam para armazenagem de água, para uso do Templo e da população de Jerusalém.

Após a construção do tanque de Israel, este passou a ter a função de reservatório, enquanto que o tanque de Betesda começou a ser utilizado como um tanque para purificação cerimonial, para todos aqueles que desejavam entrar no Templo de Jerusalém.

Isso é evidenciado pela descrição do Apóstolo João, que no capítulo 5:2, em Hebraico, diz que havia em Jerusalém um lugar destinado à Tevilah (no original João 5:2 traz as palavras, מָקוֹם אֶחָד לִטְבִילָה makon echad litvilah), que é um tipo de imersão em água, usada na purificação cerimonial.

Havia leis de pureza que deviam ser seguidas quando um Judeu desejasse subir ao Templo, para ofertar ou ter acesso aos Sacerdotes e Levitas.

E qualquer que tocar na sua cama, lavará as suas vestes, e se banhará com água, e será imundo até à tarde.
Levítico 15:21

Estas Leis foram dadas para a proteção dos Sacerdotes e dos Levitas, que exerciam o seu ministério no Templo/Tabernáculo. Nestes locais havia sacrifícios de animais, e manipulação do sangue das ofertas.

Como o sangue é um meio pelo qual os micro-organismos se multiplicam muito rapidamente, o Eterno exigiu que todos que fossem entrar no Seu santuário, passassem primeiro por medidas higiênicas, para não levar contaminação.

Pessoas vinham de todas as partes de Israel para Jerusalém, muitos há dias em viagem, com higiene precária.

Os tanques de purificação, como o tanque de Betesda, eram semelhantes aos tanques de batismo nas águas, porém a impureza de que tratavam era de natureza física, que os Apóstolos chamam de “batismo do despojamento da imundícia da carne”.

Que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundícia da carne
1 Pedro 3:21

O Tanque de Betesda Realmente Existiu?

Para entender o significado espiritual do tanque de Betesda, recomendo ler o nosso estudo bíblico “tanque de Betesda significado“, onde abordamos as alegorias presentes nessa passagem de João 5.

De uma forma geral, podemos dizer que nem mesmo os arqueólogos não acreditavam na existência do Tanque de Betesda.

Isso se deu porque os tanques destinados à imersão para purificação ritual, encontrados por meio de escavações arqueológicas, apresentavam somente quatro entradas.

O que fazia muito sentido, pois tinham um formato de um retângulo, como o Tanque de Siloé e o Birket Bani Isra’il ( “o tanque dos Filhos de Israel”), descoberto por Charles Warren’s em 1860 em Jerusalém.

Os arqueólogos, então, passaram a acreditar que a descrição feita por João, de um tanque com cinco entradas, era meramente simbólica, que nunca havia existido de fato.

Entretanto, as escavações posteriores do local, em 1880, logo ao norte do “Tanque dos Filhos de Israel“, encontrou um “novo” tanque, que possuía uma parede que o dividia ao meio, e nesta parede havia uma porta (alpendre) adicional, fazendo com que realmente tivesse Cinco Entradas, como João descreve no capítulo 5 do seu evangelho.

Betesda e a Crença em Esculápio

E como pudemos ver no início deste estudo bíblico, o tanque de Betesda inicialmente foi formado pela união de dois reservatórios. Eram duas fontes, lado a lado, que depois foram unidas, por meio de uma porta aberta entre as suas paredes.

Foi este lugar que passou a receber centenas de doentes, que esperavam o anjo que descia e agitava as águas do tanque, e foi também o local onde Jesus curou milagrosamente o paralítico de Betesda.

Há uma corrente teológica que por não entender as simbologias/alegorias da cura do paralítico de Betesda, passou a atribuir a passagem de João 5, a um tipo de crença pagã, relacionada com o deus da medicina chamado de Esculápio.

O que muitos desses teólogos esquecem de mencionar, é que a tradição de esculápio e o tanque de Betesda só foram relacionados, um ao outro, cerca de 200 anos depois de Jesus.

A tradição bíblica da cura divina por meio da imersão em água é muito mais antiga, datando da época do Profeta Elizeu e Naamã.

É mais uma prova de que a Bíblia e o Novo Testamento são a verdade, e as suas histórias são verdadeira Palavra de Deus.

Toma o Teu Leito e Anda

Jesus, após curar o paralítico do tanque de Betesda, dá a seguinte ordem:

Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu leito, e anda.
João 5:8

Podemos chegar ao entendimento de que há um mistério maravilhoso no mandamento de Jesus. O leito era a maior testemunha dos longos anos em que o homem do tanque de Betesda esteve inválido, preso a uma cama.

Veja que Jesus não manda que o ex-paralítico “jogasse fora” a sua cama. O Mestre não ordenou que ele se “esquecesse” da sua história de vida.

Mas Jesus ordenou que o paralítico de Betesda tomasse a sua cama, ou seja, que tomasse o seu testemunho de vida para andar, e dar testemunho do milagre, da maravilha que o Senhor havia feito.

É uma lição de que não podemos esquecer do “lugar” que o Senhor nos tirou. Nós que padecíamos de uma semelhante paralisia espiritual, que estávamos nas “trevas”, no mundo do pecado.

Mas agora recebemos um chamado para caminhar na luz. Temos que andar com a nossa história de vida para dar testemunho do que Jesus fez por nós.

Sobre o autor | Website

Formado em Hebraico Bíblico, Geografia Bíblica, Novo Testamento, e Estudos do Apocalipse; é Especialista em Estudos da Bíblia, certificado pelo Institute of Biblical Studies da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Receba Estudos Bíblicos Diretamente no Seu Email! É Grátis!

100% livre de spam.

Para enviar seu comentário, preencha os campos abaixo:

Deixe uma resposta

*

3 Comentários

  1. André Leal disse:

    Muito bem explicado, de fácil entendimento, com base biblica, parabéns Deus abençoe.

  2. Auricelio disse:

    Estou encantado com o site. São estudos profundos e tenho aprendido muito. Não quero ficar na superficialidade, mas nas profundezas de Deus. Recomendo aos irmãos, por esclarecer o verdadeiro significado da Palavra, do original de Deus.

  3. janailton disse:

    muito bom otimo