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A Cura dos Dez Leprosos – Indiferença e Gratidão | Estudo Bíblico

A Cura dos Dez Leprosos – Indiferença e Gratidão | Estudo Bíblico

A cura os dez leprosos é uma passagem repleta de simbologias, que demonstra como a lepra era uma doença dramática nos tempos da antiguidade. Talvez de todas as enfermidades, esta era a mais temida.

Claro que ninguém desejava ter outras doenças, mas a lepra era a mais terrível, por causa do isolamento que o indivíduo era submetido, como a única forma de prevenir o contágio de outras pessoas.

Todos os dias em que a praga houver nele, será imundo; imundo está, habitará só; a sua habitação será fora do arraial.
Levítico 13:46

Os dez leprosos certamente passaram por esse sofrimento indescritível! Imagino a angústia que eles sentiram quando os primeiros sintomas começaram a aparecer… o medo de estar realmente leproso, a tentativa de esconder da família e dos vizinhos.

O Isolamento dos Dez Leprosos

Porém, mais cedo ou mais tarde todos iriam saber. E aí, eles teriam que ser expulsos da convivência social. A perda da família, da esposa, nunca mais um abraço nos filhos, nem contato, nem uma conversa… é como estar morto em vida.

E ter que ver as pessoas te evitando, fugindo mesmo da sua presença, é neste momento que aqueles dez homens perceberam que estavam leprosos.

Fora essa dor física da lepra, e a dor da saudade eterna, imagine a culpa que esses homens carregavam! A dúvida eterna que torturava a alma todas as noites, ao deitar e colocar a cabeça no travesseiro, logo viria o questionamento, “o que será que fiz de errado? Aonde foi que eu errei?”

A sociedade Judaica da época, erradamente, acreditava na teologia da causa e efeito. Eles pensavam que se alguém estava com algum tipo de sofrimento, ou doença, estava pagando por seus próprios pecados, estava sendo castigado por Deus.

Há vários exemplos desse tipo de pensamento, registrados na Bíblia, e o registro mais marcante está no livro de Jó, quando os amigos de Jó o repreendem, em uma tentativa de fazer com que Jó confesse os seus pecados ocultos.

Abrem a sua boca contra mim; com desprezo me feriram nos queixos, e contra mim se ajuntam todos.
Jó 16:10

E só Jesus conhecia e compreendia todas as misérias , e os pesares que os dez leprosos passavam. O Mestre sabia das dores, da solidão e do desprezo com esses pobres homens doentes eram tratados.

Isolar Não Significa Abandonar

Como apresentamos nos estudos bíblicos sobre “a mulher do fluxo de sangue“, e “o arraial das impuras e o vale dos rejeitados“, apesar da Lei de Deus determinar o isolamento das pessoas que contraíram esse tipo de enfermidade, essa medida era de cunho higiênico apenas, para prevenir que a lepra se espalhasse no meio do povo de Deus.

Ainda nos dias atuais, o isolamento é usado nos hospitais, quando pacientes são internados em quartos exclusivos para isolamento de contato.

Todos os profissionais de saúde (médicos, enfermeiros e etc.) que precisarem prestar cuidados a estes pacientes, tem que obrigatoriamente usar luvas e aventais protetores, para não carregarem em suas mãos os micro-organismos para outros pacientes.

A recomendação de isolamento dos leprosos (há mais de 3000 anos) reflete a sabedoria de Deus, mesmo antes de haver uma ciência médica avançada com conhecimento de microbiologia.

Entretanto, o isolamento dos leprosos não significa que eles deveriam ser abandonados pela sociedade. Os dez leprosos estavam doentes, e necessitavam de assistência. A ordem divina nunca falou em abandono.

Havia inclusive, segundo a tradição Judaica, um local, atrás do arraial do povo de Israel (quando estava no deserto), destinado a receber essas pessoas, até que a sua saúde fosse restituída. E foi isso que aconteceu com Miriam, a irmã de Moisés, quando ficou leprosa.

O povo de Israel não partiu do local em que estavam acampados, até que Miriam fosse restabelecida.

Assim Miriã esteve fechada fora do arraial sete dias, e o povo não partiu, até que recolheram a Miriã.
Números 12:15

Pelo Meio de Samaria e Galileia

O nosso estudo bíblico sobre os dez leprosos se inicia nos versos de Lucas 17:11-19, afirmando que Jesus passou pelo meio da Samaria e da Galileia.

E aconteceu que, indo ele a Jerusalém, passou pelo meio de Samaria e da Galiléia;
Lucas 17:11

Há uma alegoria muito interessante de se notar neste versículo, porque no contexto histórico quem habitava originalmente nas terras da Samaria e da Galileia, eram as dez tribos do norte, que com Jeroboão, após a morte do rei Salomão, se confederaram e se separaram das duas tribos do sul (Judá e Benjamim), formando o chamado “Reino do Norte, ou Reino de Israel e Efraim”.

Essas “dez tribos”, espiritualmente, são simbolizadas pelos dez leprosos. Elas passaram a adorar outras divindades, deixaram o Deus de Abraão, tornaram-se pagãs e o Eterno enviou os Assírios, que levaram os habitantes das dez tribos leprosas (espiritualmente), para o exílio, e nunca mais elas retornaram.

O Evangelho de Lucas trata da cura de dez homens enfermos. Claro que esse é o sentido direto da mensagem, porém em um nível simbólico, trata também da cura das dez tribos de Israel, que só irão ser purificadas quando clamarem e reconhecerem o Messias, o Cristo, o nosso Mestre Jesus.

Os Dez Leprosos Clamam Por Jesus

A simbologia acima descrita, emerge da aproximação e do clamor que os dez leprosos dirigiram a Jesus.

E, entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe;
E levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós.
Lucas 17:12,13

No original, em Hebraico, as palavras “e levantaram [a sua voz]” são dadas pelo termo  וְנָשְׂאוּvenassú“, que é usado para descrever o ato de “levantar peso”, ou algo pesado. Realmente eles levavam um grande peso da culpa e da solidão, do desprezo e do abandono.

E reuniram coragem para clamar ao Mestre. É um grande ensino que nos fala da oração, do ato de levantarmos as nossas vozes e confessarmos a Jesus as nossas dores, e os mal tratos que possamos receber dessa geração incrédula que está a se instalar no mundo.

Muitas vezes a sociedade nos faz como leprosos, nos ofende, e nos isolam por causa da nossa fé. Devemos clamar ao Senhor.

Outra palavra que vale destacar, é quando os dez leprosos dizem “tem misericórdia [de nós]”, que em Hebraico é o verbo רַחֵם rachem, uma construção intensiva (chamada de Piel), que significa um clamor com todas as forças “compadece-te de nós”. O cego de Jericó, Bartimeu, também usou esse verbo.

A Cura dos Dez Leprosos

E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos.
E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz;
Lucas 17:14,15

Jesus respondeu ao clamor intensivo dos homens leprosos com uma ordem “ide e mostrai-vos aos sacerdotes“. E eles foram, mostrando a fé deles por meio da obediência ao mandamento do Mestre.

Porém, ainda que pensassem obedecer, faltou a eles um certo entendimento mais profundo da palavra de Jesus. Duas coisas gostaria de destacar aqui.

A primeira é a parte que diz, “indo eles” (Lucas 17:14). Em Hebraico é o termo וּבְלֶכְתָּםuvlechtam” (lê-se uvilertam), que é a mesma palavra usada no livro do Profeta Ezequiel, quando relata a visão dos quatro seres viventes:

E a semelhança dos seus rostos era como o rosto de homem; e do lado direito todos os quatro tinham rosto de leão, e do lado esquerdo todos os quatro tinham rosto de boi; e também tinham rosto de águia todos os quatro.
Ezequiel 1:10

Esses mesmos seres viventes foram vistos por João, no Apocalipse, na visão do trono:

E o primeiro animal era semelhante a um leão, e o segundo animal semelhante a um bezerro, e tinha o terceiro animal o rosto como de homem, e o quarto animal era semelhante a uma águia voando.
Apocalipse 4:7

  • O boi/bezerro é um animal de carga, que trabalha e serve aos seus proprietários. O rosto de boi representa Jesus como o servo sofredor, que veio para servir, e não para ser servido.
  • O rosto de homem representa o Messias humano, pois Jesus veio em carne. Verdadeiramente Deus se tornou como um de nós e sentiu todas as provações que um homem pode sentir, foi tentado em tudo, porém sem pecar.
  • O rosto de leão representa o reino Messiânico de Jesus, que como o leão da tribo de Judá, irá estabelecer o Seu reino que jamais terá fim.
  • O rosto de águia – a águia que voa muito mais alto, acima de qualquer ser humano, e que vê tudo do alto, representa Jesus como Deus. Pois os caminhos do Mestre são mais altos do que os nossos caminhos, e Seus pensamentos são mais altos do que os nossos pensamentos.

E o Profeta Ezequiel relata que esses quatro seres viventes andavam sempre na direção para onde “olhava a cabeça”. A cabeça é Cristo – essa é a direção do nosso caminhar.

Andando estes, andavam para os quatro lados deles; não se viravam quando andavam, mas para o lugar para onde olhava a cabeça, para esse seguiam; não se viravam quando andavam. Ezequiel 10:11

Nesse verso acima, a palavra para “andando estes“, é a mesma usada no texto anterior, dos dez leprosos, “indo eles” – וּבְלֶכְתָּםuvlechtam“.

Há uma comparação alegórica do Evangelho de Lucas, com a visão do Profeta Ezequiel, para mostrar a verdadeira direção que os dez leprosos deveriam ter seguido.

Isso porque os seres da visão só seguiam na direção “da cabeça”, que é Jesus. Os leprosos, quando começaram a caminhar, foram purificados, curados da lepra,  e a direção que deveriam ter tomado era voltar e agradecer ao Mestre (a “cabeça do corpo de Cristo”).

Apresentem-se Aos Sacerdotes

É claro que a Lei de Deus mandava que um leproso curado se apresentar aos Sacerdotes no Templo de Jerusalém,. Porém, dos dez leprosos, nove não conseguiram enxergar que diante deles estava um Sacerdote cujo ministério era maior do que o Sacerdócio Levítico.

Jesus era Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. Os Sacerdotes filhos de Arão eram substituídos com o tempo, por causa da idade e por causa da morte eram impedidos de continuar no ministério.

Jurou o Senhor, e não se arrependerá: tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque.
Salmos 110:4

O Sacerdócio de Jesus porém é eterno, sem começo e sem fim, segundo a ordem de Melquisedeque, muito anterior e mais antigo e glorioso do que o Sacerdócio de Arão.

Somente Um Volta Para Agradecer

E caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano.
E, respondendo Jesus, disse: Não foram dez os limpos? E onde estão os nove?
Lucas 17:16,17

Além disso, nenhum Sacerdote havia na história jamais purificado um leproso. Jesus estava cumprindo a lei de Deus quando mandou os leprosos irem a Jerusalém cumprir o ritual de purificação. Entretanto, nenhum ritual foi capaz de tirá-los da vida miserável em que se encontravam.

Todos os tinham abandonado. Eles foram ressuscitados por Jesus, trazidos de volta a vida, a comunhão, a família e a sociedade. Mas rapidamente se esqueceram do Sumo Sacerdote de Deus, que permanece eternamente.

O Samaritano, que embora tivesse também a descendência genética de Abraão, era de outra religião, não reconhecida pelos Judeus, habitantes do sul de Israel. Ele era do norte, originário dos remanescentes das dez tribos do norte.

Mesmo com o histórico de pecados e desvios dos seus antepassados, ele soube reconhecer que ritual, religião, sacerdote, ou templo algum estavam acima da gratidão ao Sacerdote Eterno.

Jesus era o próprio Templo de Deus em carne, em pessoa. Por isso o Samaritano se prostra diante Dele e recebe não apenas a cura física, mas recebe também algo que é muito superior, a salvação eterna, dada pelo próprio Eterno.

E disse-lhe: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou.
Lucas 17:19

Sobre o autor | Website

Formado em Hebraico Bíblico, Geografia Bíblica, Novo Testamento, e Estudos do Apocalipse; é Especialista em Estudos da Bíblia, certificado pelo Institute of Biblical Studies da Universidade Hebraica de Jerusalém.

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2 Comentários

  1. Paula de Souza Cunha disse:

    Gostei muito desse testemunho

  2. Elias de Souza disse:

    A paz do Senhor, gostei muito do estudo.Deus continue abençoando o professor Israel Silva.