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A Mulher Samaritana e Seus Cinco Maridos | Estudo Bíblico

A Mulher Samaritana e Seus Cinco Maridos | Estudo Bíblico

Jesus deixa a Judeia, o centro religioso de Israel, para retornar à Galileia. O trajeto natural dessa viagem, passaria pelo meio das terras dos Israelitas Samaritanos, onde o Mestre encontraria com a mulher Samaritana.

Essa passagem é muito conhecida, contada e cantada, foi tema de milhares de pregações e canções. Realmente o texto de João 4:1-43, traz uma história magnífica, o resgate das ovelhas perdidas da casa de Israel.

Foi, pois, a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, junto da herdade que Jacó tinha dado a seu filho José.
E estava ali a fonte de Jacó. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte. Era isto quase à hora sexta.
João 4:5,6

A origem da mulher samaritana

João relata como o Eterno se compadeceu dos filhos de Jacó, as dez tribos do reino do norte, que após a morte do rei Salomão, se rebelaram contra o seu filho Roboão, e formaram o chamado reino de Israel.

Eles se separaram das duas tribos do sul, as tribos de Judá e Benjamim. E andaram na desobediência, esquecendo dos mandamentos que o Eterno tinha ordenado ao Seu povo.

Por isso, sem a proteção divina, o rei da Assíria levou a maioria deles para terras da região da Mesopotâmia, as terras da Babilônia. Recomendo ler o nosso estudo bíblico, a origem dos Samaritanos, para melhor compreender essa história.

Apesar desse castigo, não foram todos os Samaritanos que foram levados da terra de Israel. Alguns desceram para o reino do sul, a casa de Judá, e lá permaneceram servindo ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

Conforme atesta o Evangelho de Lucas, havia em Judá, Israelitas com origem nas tribos do norte, ainda no tempo de Jesus:

E estava ali a profetisa Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser
Lucas 2:36

Outros Israelitas da casa de Israel, permaneceram na região de Samaria, e houve um pequeno retorno, principalmente da classe sacerdotal, de acordo com o registro do livro de 2º Reis:

Então o rei da Assíria mandou dizer: Levai ali um dos sacerdotes que transportastes de lá; e vá e habite lá, e ele lhes ensine o costume do Deus da terra.
2 Reis 17:27

E todos conviviam entre si, os Israelitas Samaritanos que não foram levados cativos (pois geralmente a elite da sociedade é quem era capturada e deportada, e os Samaritanosestrangeiros” (vindos da Babilônia).

As ovelhas perdidas da casa de Israel

O Evangelho de João 4:5, registra que Jesus foi à cidade chamada Sicar, junto da herdade que Jacó tinha deixado para o seu filho José. O Mestre se sentou ao lado do poço de Jacó.

Essa região é belíssima! João está relacionando o encontro de Jesus e a mulher Samaritana, com a história dos filhos de Jacó, de José e do povo de Israel.

José teve dois filhos, Efraim e Manassés. A tribo de Efraim foi tão poderosa no reino de Israel, que por muito tempo o próprio reino era chamado de reino de Efraim, ou reino de Efraim e Israel.

A cidade de Sicar ficava no distrito de Siquém. Era uma das seis cidades de refúgio, para onde os Hebreus iriam em busca de refúgio, caso tivessem matado alguém, mas de forma involuntária (ou seja, por acidente).

O Evangelista está nos conduzindo com a sua narrativa, para fatos que falam de um povo que havia se perdido, com muitos exilados, e a própria cidade era destinada a abrigar refugiados, exilados, e perdidos de suas cidades natais.

Há uma forte conexão nessa história da mulher Samaritana, com uma afirmação poderosa e reveladora do nosso Mestre:

E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.
Mateus 15:24

Como podemos ver, há muitos acontecimentos trágicos ligados a esse encontro. A sombra do passado, com a tragédia de José, incompreendido, rejeitado e vendido por seus irmãos ao Egito.

Depois com a redenção da servidão, os descendentes de José fixaram moradia nos montes de Efraim e Samaria. Mas com a corrupção do povo, veio a primeira diáspora.

A própria história da mulher Samaritana também é muito comovente. Ninguém sabe das tragédias pessoais que ela pode ter sofrido. Deve ser algo extremamente frustrante, passar por cinco casamentos.

E não há informação clara sobre o que houve com os seus ex-maridos. Quem sabe eles possam ter falecido. Mas não sabemos ao certo qual foi o destino que eles tiveram.

Mas sabemos que João, atento ao que estava ocorrendo, faz toda conexão com a tragédia do exílio que tratamos na introdução deste esboço.

A misericórdia de Deus foi tão grande para com os filhos de Jacó, que Jesus veio para usar a vida daquela mulher como um portão de entrada, para resgatar o que se havia perdido no passado.

Dai-me de beber

Foi do diálogo de Jesus com a mulher de Samaria que surgiu uma das mensagens mais sublimes de toda a Escritura. Sentado ao lado do poço de Jacó, o Mestre pede que a Samaritana lhe dê água.

Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber.
João 4:7

O poço de Jacó pode ser chamado também de “a fonte de Jacó”, pois a palavra no original em Hebraico é מַעְיַןmeyan“, que significa “fonte/poço”.

Era a fonte de que Jacó e seus doze filhos, as doze tribos de Israel, beberam na antiguidade. E a própria mulher Samaritana confirma quando diz:

És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, bebendo ele próprio dele, e os seus filhos, e o seu gado?
João 4:12

A fonte/poço de Jacó constitui uma alegoria. É a figuração da fonte da água viva que os Israelitas “bebiam” no passado de glória, quando adoravam somente ao único Deus, e cumpriam os Seus mandamentos:

Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm águas.
Jeremias 2:13

A fonte que os filhos de Israel beberam era o próprio Eterno, e a água é uma alusão às palavras da Sua boca, as Escrituras sagradas.

Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra
Efésios 5:26

Por isso Jesus disse, “dai-me de beber”, pois era uma primeira prova de que a Samaritana não tinha mais a água da vida em si mesma, ao menos até aquele momento.

Judeus x Samaritanos

Disse-lhe, pois, a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (porque os judeus não se comunicam com os samaritanos).
João 4:9

O conflito que existia entre os Israelitas do sul, os Judeus e os Israelitas Samaritanos, ao contrário do que muitos podem pensar, não era motivado por diferenças raciais.

Mesmo que povos de outras regiões estivessem habitando na terra dos antigos Hebreus do reino do norte (Efraim e Israel), isso não seria um obstáculo para a boa convivência entre eles.

Os Judeus tem um enorme histórico de absorver pessoas de outras etnias, desde a saída do Egito, pois o Êxodo informa que uma multidão de povos acompanhou aos Hebreus, e todos eram chamados de povo de Israel.

Desde que houvesse a conversão à religião Judaica, todos seriam aceitos como legítimos Israelitas. Porém os Samaritanos, desde a separação ocorrida após a morte do rei Salomão, fundaram a sua própria religião.

A religião Samaritana era muito parecida com a dos Judeus, adorando um único Deus, tendo um único livro como referência, a Torá Samaritana. A principal diferença era o local considerado como o correto para a construção do Templo.

Para os Samaritanos, era o monte Gerizim, e não Jerusalém. Isso fez com que os Samaritanos tivessem uma religião que era concorrente com a dos Judeus, e com tempo, tornaram-se adversários.

Os cinco maridos da mulher Samaritana

Disse-lhe Jesus: Vai, chama o teu marido, e vem cá.
A mulher respondeu, e disse: Não tenho marido. Disse-lhe Jesus: Disseste bem: Não tenho marido;

Porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade.
João 4:16-18

Os versos de João 4:16-18 são mais profundos do que a simples leitura superficial do texto pode revelar. Na história de vida da mulher Samaritana, o passado e presente parecem se encontrar.

A história dos descendentes de José do Egito parecem estar tipificados na vida daquela mulher. Como abordamos no início deste estudo, a região da Samaria foi entregue, dominada por cinco povos.

São cinco nações que se apoderaram das terras de Jacó:

  1. Babilônia;
  2. Cuta;
  3. Ava;
  4. Hamate; e
  5. Sefarvaim.

São cinco povos, e cada um deles adorava um deus diferente. A Bíblia sempre compara Deus como marido de Israel, portanto, esses deuses que foram adorados em Samaria, pelos “Samaritanos estrangeiros”, equivalem a cinco maridos.

Em Hebraico, a Samaritana respondeu a Jesus com as seguintes palavras:

אָמְרָה לו אֵין לִי בַּעַל “amrah lô eyn li baal” – “Não há para mim baal [marido] [deus baal]

A palavra בַּעַל baal significa “marido”, e era usada para dar nome a uma divindade que foi adorada pelos Israelitas do norte, os Israelitas Samaritanos.

De forma semelhante, em Hebraico, a resposta de Jesus contem as seguintes palavras:

כִּי חֲמִשָּׁה בְּעָלִים הָיוּ לָךְ “ki chamishah bealim hayú lach” “porque cinco bealim/maridos/deuses você teve…”

A Samaritana representa Samaria nessa passagem. E representa as ovelhas perdidas da casa de Israel (o reino do norte), onde muitos Israelitas se renderam a adoração desses deuses feitos de pau e de pedra.

A triste história de uma das descendentes de Jacó, que teve cinco maridos, serviu de uma perfeita alegoria para a mensagem do Evangelista João.

Quando Jesus disse, “tiveste cinco maridos“, Ele falava tanto da mulher de Samaria, como da própria história de toda Samaria.

E o Mestre completa com, “e o que agora tens não é teu marido“, porque ela não estava casada com o homem com que vivia. E em um outro nível de interpretação, a religião que os Samaritanos tinham, também não era deles.

Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar.
João 4:20

A religião dos Samaritanos não era a religião dos antigos Hebreus, dada pelo Eterno em forma de mandamentos a Moisés, Arão, e a Josué.

Deus escolheu Davi para reinar sobre o Seu povo, e escolheu Jerusalém para estabelecer o Seu Templo e fazer habitar o Seu nome. Esse “Samaritanismo” não era o marido legítimo de nenhum Israelita, seja Israelita Samaritano, Israelita Galileu ou Israelita Judeu.

É por isso que Jesus responde:

Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus.
João 4:22

A verdadeira adoração

Ainda mais, o que ela não sabia era que Jesus estava prestes a inaugurar uma nova era na adoração ao Eterno, onde não se dependeria mais de local ou de Templo.

Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.
João 4:21

Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.
João 4:24

O Mestre, no Seu corpo, se tornou a oferta perfeita pelos pecados da humanidade, fazendo com que a oferta de animais ficasse obsoleta. O sacrifício de Jesus é tão perfeito que o seu efeito é eterno, pagando de uma vez por todas a nossa dívida para com Deus.

E o conhecimento dessa revolução fez nascer a esperança de salvação no coração da Samaritana:

A mulher disse-lhe: Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará tudo.
João 4:25

E ela foi e anunciou ao restante da aldeia que o Messias prometido, Aquele que restauraria as tribos perdidas da casa de Israel, estava às portas da cidade, sentado ao lado do poço que seus ancestrais tinham perfurado.

E muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra da mulher, que testificou: Disse-me tudo quanto tenho feito.
João 4:39

E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.
João 4:42

Os campos estão brancos

Eis que eu vos digo: Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa.
João 4:35

Eu entendo que a interpretação usual para o texto do verso acima, é de que Jesus adivertiu aos Seus discípulos que eles deveriam olhar para além das aparências para pregar as boas novas de salvação.

Que eles tinham que olhar para fora da comunidade Judaica, e entender que a obra redentora foi preparada para toda a humanidade, inclusive para aquela comunidade Samaritana, considerada herética pelos Judeus.

Há porém mais uma possibilidade para interpretar esse versículo. Ocorre que as festas que o Eterno tinha ordenado ao Israelitas, seguia como que as estações do ano e as fases do plantio e colheita.

Essas estações de crescimento dos grãos duravam cerca de quatro meses cada:

Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa…
João 4:35

Em cada colheita era celebrada uma festa ao Eterno. Na colheita do outono era celebrada a Sukkot, a festa dos Tabernáculos. Na colheita da primavera, era celebrada a festa de Pêssach (a Páscoa), e a Shavuot (Pentecostes).

Quando a primavera e a Páscoa se aproximam, os campos de cevada ficam de cor branca, prontos para a colheita. E os Evangelhos são unânimes em concordar que Jesus foi crucificado durante a Páscoa.

Quando Ele disse, “os campos estão brancos“, estava também se referindo a Sua crucificação, e a consumação da obra da redenção, onde a salvação deveria ser pregada a todos os povos, línguas e nações, sem preconceitos de cor, raça ou religião.

Sobre o autor | Website

Formado em Hebraico Bíblico, Geografia Bíblica, Novo Testamento, e Estudos do Apocalipse; é Especialista em Estudos da Bíblia, certificado pelo Institute of Biblical Studies da Universidade Hebraica de Jerusalém.

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